sábado, 27 de dezembro de 2014

O Imoralista - André Gide

Meu Deus! Como resenhar um livro do Gide?
É quase impossível fazer isso sem bajular. Ele é simplesmente espetacular. É o tipo de autor que nasceu para a escrita, que nasceu com o dom.

"Saber se libertar não é nada... mais difícil é aprender a viver em liberdade"

Nesse livro  o tema é a busca pela felicidade. Através do olhar do personagem Miguel, que no início da história casa-se com Marcelina e juntos começam a correr a Europa. Pouco tempo depois ele se descobre doente, e essa proximidade com a morte faz despertar um novo homem, talvez um pouco mais egoísta, mas completamente focado em atingir a felicidade. Não de uma forma comum, a felicidade que o personagem busca é aquela vinculada à liberdade total: moral, física, psicológica, social...

"Miguel, voyeur de sua própria memória, renuncia a vida anterior, ajuda aqueles que o furtam, dispõe sua propriedade a venda e une-se a Marcelina, para satisfazer a vontade do pai moribundo, que de esposa, torna-se enfermeira. Arrependido, procura assumir seus encargos como marido, mas a tentação de liberdade é mais forte. Seu caminho passa a ser o de destruir, nunca o de usar a liberdade." Fonte: PCO.org
Imagem: anitanoalfarrabista.blogspot.com.br/

Essa postura é uma tentativa deliberada de ir contra o senso comum ou é um desejo pueril que insiste em atraír-se pelo que é errado? Penso que a postura do personagem talvez seja um reflexo das suas tendência homossexuais (o que fica levemente subtendido na trama). Talvez a culpa fizesse com que ele deseja-se se libertar ou então desgarrar-se de uma vez com os padrões morais (precisamos lembrar que essa história foi escrita em 1902).

Depois de um tempo Miguel e Marcelina decidem se assentar na fazenda da família, e esse contato com a natureza, simplesmente encanta Miguel. Quando eles precisam voltar à cidade, transcorrem alguns dos trechos mais interessantes do livro, na minha opinião. Miguel começa a narrar a sua ojeriza pelas pessoas comuns, pelo senso comum, pelo status quo. Ter que ficar entre tantas pessoas, falando de coisas banais, tentando impressionar, ser amável e simpático - mesmo quando já se está de saco cheio delas simplesmente enerva o cara. Como me identificar mais? Chega uma hora em que ele rompe com essa realidade e cai novamente na estrada com sua esposa. E obviamente toda essa mudança cobrará um preço alto de ambos no final da trama.

O mais interessante é que ele começa a menosprezar a própria fortuna, como se a riqueza fosse um impedimento à obtenção da felicidade. Um sentimento com o qual eu super me identifico. E antes que qualquer um comece a achar que eu ou o Gide somos malucos, leia o livro. Ele consegue exprimir isso muito melhor que eu. Mas tem algo a ver com o fato de que as coisas mais prazerosas são gratuitas (no sentido de que não se pode valorá-las) embora para desfrutá-las obviamente tenha que se ter dinheiro. Acompanha comigo: sexo, comer, dormir, conversar com os amigos, abraçar alguém que se ama, ir à praia.... Não é possível colocar um preço nessas coisas, e nem se pode comprá-las em alguma loja. Mas ao mesmo tempo não podemos desfrutá-las se não tivermos o mínimo de dinheiro para nos sustentarmos. Esse conflito fica claro na história de Gide. O personagem deixa claro que ao mesmo tempo que deseja esbanjar sua fortuna, também precisa dela para sustentar seu estilo de vida e sua mulher.

O final do livro é um tanto impactante, você fica com aquele alerta apitando na cabeça, tipo: Meu Deus, isso é a vida, são como as coisas acontecem!

Pelo que consegui ler no prefácio do livro, a história é um tanto biográfica, parece que certos aspectos da vida do autor estão embutidas na história, mas não tudo.

André Gide, seu gatinho!
O melhor dessa história eu não contei. Sabe como adquiri esse livro? Voltando do curso no sábado, passando pela praça XV, ele estava nada mais nada menos do que jogado no chão, lixo (provavelmente um resquício da feira que acontece toda manhã aos sábados no lugar) eu simplesmente abaixei e peguei - como quem pega uma fruta no pé - e devorei com todo o sabor e prazer que um livro tão gostoso pode proporcionar. Conseguem perceber como a vida é sensacional? Estava eu, vivenciando o mesmo que Miguel, antes mesmo de conhecê-lo. Provando ali, naquele momento, que a felicidade é mesmo gratuita. Só precisamos estar no lugar certo e manter os olhos abertos. E agarrar a oportunidade, sem vergonhas ou reservas. Pois a vida é nossa, é nosso o direito de vivê-la. Da melhor forma que nos aprouver. Definitivamente buscando a felicidade, sobre todas as coisas.


Um comentário:

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