sábado, 14 de dezembro de 2013

Resenha: Afogando Ruth - Christina Schwarz "Um pouco de amor, um pouco de senso de importância"

                                          Olhando a capa desse livro o que você sente? 

Eu me sinto completamente intrigada. Por esse tom noir e misterioso da capa, que combina tão bem com o título da obra. Ela  te faz questionar: Quem é Ruth? Porque afogaram ela? Seria afogar num sentindo metafórico? Quem afogou a pobrezinha da Ruth !? Salva ela, sal-vaaa!! 

Brincadeiras à parte, essa é a grande curtição do livro: te enredar na curiosidade que ele próprio gera. E como todos do tipo, ele nos pega desprevenidos: você lê a primeira página só para sentir o tom, lê a segunda para entender melhor, continua pela terceira para dar continuidade, e quando vai ver já não consegue parar, e logo estará pelos cantos com depressão pós-livro.
Logo no início somos apresentados à Amanda (a irmã mais velha), à Mathilde (irmã mais nova) e à pequena Ruth (filha de Mathilde). Logo também entram em cena a cidade de Nagawaukee, a fazenda da família e o lago. Em seguida, conhecemos Carl o esposo de Mathilde que acabou de retornar da guerra, para descobrir que sua esposa morreu afogada no lago congelado. Não demora até que você comece a desconfiar que Amanda não é tão boazinha quanto parece. Ou seria a menina Ruth, a pequena vilã?

_ Tia Mandy... - sussurou ela.
_ O quê, Ruthie?
_ Você pode voltar para casa agora. Eu fiz ela ir embora.


Toda a verdade  é oferecida lentamente, deixando espaço para a imaginação do leitor. De certa maneira, (mas num estilo completamente diferente), Christina Schwarz me lembrou o Stephen King, por essa capacidade de construir uma narrativa fluída e atraente, que te faz comer páginas em busca de uma explicação, que só virá bem no final.

Sendo o seu romance de estreia, ela literalmente começou bem. Porque infelizmente, a obra perde um pouco de foco no meio. O ar de mistério só retorna no final - momento em que  verdades são reveladas. 



       Afogando Ruth é um retrato assombroso dos laços que unem duas irmãs e das forças que as separam, dos perigos dos segredos e das repercussões explosivas quando estes se revelam.
    No inverno de 1919, a enfermeira Amanda Starkey passa seus dias cuidando dos soldados feridos na Primeira Guerra Mundial. Depois de uma crise nervosa ela deixa Milwaukee e se refugia na fazenda da família, buscando conforto com sua irmã mais nova, Mathilda, e a sobrinha de três anos, Ruth. Logo percebe que o seu antigo lar não é um refúgio, e que levara seus problemas consigo. Quase um ano depois, numa noite terrível, sua irmã desaparece misteriosamente, sendo encontrada mais tarde afogada sob o gelo que cobre o lago da propriedade. Quando o marido de Mathilda volta da guerra, ferido e perturbado, encontra Amanda incumbida de Ruth e da fazenda, assumindo toda a responsabilidade com uma intensidade assustadora.
   De modo enviesado e cauteloso Amanda conta a história da sua família em doses homeopáticas, tão preocupada em ocultar de si mesma e do leitor os segredos do seu passado e daquele noite.    A pequena Ruth aterrada pela própria memória cresce sob o vigilante cuidado da tia, magoada e possessiva, tomando gradualmente consciência dos estranhos acontecimentos da sua infância. Ao contar sua história com uma clareza cada vez maior, Ruth descobre o pesado tributo cobrado de sua família em consequência dos segredos da tia.
    Guiando-nos através das vidas das mulheres da família Starkey, o primeiro romance de Christina Schwarz revela sua compaixão e entendimento singular a respeito da paisagem do interior Norte-Americano e das pessoas que ali vivem. É uma estreia fascinante e dolorosamente bela.
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Christina Schwarz nasceu no estado de Wiscosin, nos Estados Unidos. É mestre em literatura inglesa pela Universidade de Yale, foi professora colegial e hoje dedica-se apenas à literatura. Depois de várias mudanças vive atualmente em Los Angeles.

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Jenyne Butterfly: uma aula de pole dance!

Esse vídeo corre completamente por fora da proposta desse blog. Mas como sou uma entusiasta da Arte em geral, quis compartilhar com vocês esse vídeo que é sensacional. Afinal, quando a arte é de qualidade é impossível não se encantar.






Aproveitando o embalo e a malemolência do corpo, pra quem gosta tem Cirque du Soleil em janeiro aqui no Rio, partiu?


terça-feira, 26 de novembro de 2013

As melhores da Mafalda - Part I





Tradução
Tira 1 - Se eu falo a ela que não veja tanta televisão vai acabar me odiando. Porque não fala você?  / Mafalda, seria conveniente que visse...  / Que?  / Que, Que filhinha?

Tira 2 -  Porque a TV e a rádio falam tanto do Vietnam? / Sei lá!  / É um desses problemas que os adultos criam, então deixe que os adultos resolvam  Você que é adulta mamãe, me diz: Que problema é esse do Vietam?   E... este...bem. Eu-Eu! É...um problema...Quando papai chegar pergunta a ele!  Toma Felipe. Para você esperar as soluções dos adultos, tá?

Tira 3 - Que negócio é esse, Felipe? / É um "eu-eu". (Em espanhol a pronúncia do palavra Io-Io soa como "eu-eu") É um você-você? Não! Um "eu-eu". Ahnn? Um Felipe-Felipe? Não! Não é um "eu" de "eu". Se chama "eu-eu". Entende? Eu-Eu, Eu-Eu. EGOCÊNTRICO!

Tira 4 -  Não sei o que aconteceu comigo hoje! Estou com a moral lá embaixo!  / Que triste fim para uma moral!

Tira 5 -  Você tem que tomar! Os que não tomam sopa não crescem nunca!  / E ficam crianças para sempre, e nunca se tornam adultos!  / Que tranquilidade reinaria hoje nesse mundo se Marx não tivesse tomado sua sopa!
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Mafalda foi uma tira escrita e desenhada pelo cartunista argentino Quino. As histórias, apresentam uma menina preocupada com a Humanidade e a paz mundial, que constantemente se rebela com o estado atual das coisas e do mundo. Sua primeira aparição foi em 1964 no jornal Primeira Plana,de lá passou por alguns outros jornais, até Quino decidir por encerrar a publicação desses cartoons em 1973.

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Martha Medeiros: estar triste não é estar deprimido.


A verdade é que eu não acordei triste hoje, nem mesmo com uma suave melancolia, está tudo normal. Mas quando fico triste, também está tudo normal. Porque ficar triste é comum, é um sentimento tão legítimo quanto a alegria, é um registro de nossa sensibilidade, que ora gargalha em grupo, ora busca o silêncio e a solidão. Estar triste não é estar deprimido. Tem dias que não estamos pra samba, pra rock, pra hip-hop, e nem pra isso devemos buscar pílulas mágicas para camuflar nossa introspecção, nem aceitar convites para festas em que nada temos para brindar. Que nos deixem quietos, que quietude é armazenamento de força e sabedoria, daqui a pouco a gente volta, a gente sempre volta, anunciando o fim de mais uma dor - até que venha a próxima, normais que somos.
Martha Medeiros

***

VEJA TAMBÉM DA MESMA AUTORA:

sábado, 23 de novembro de 2013

The Runaways: porque Elas também gostam de sexo, drogas & Rock N' Roll

Filme The Runaways: porque elas também gostam de sexo, drogas & rock n' roll.

É duro admitir, mas as vezes precisamos de Hollywood e seus filmes clichês para tomar conhecimento de coisas interessantes. Um exemplo disso é o filme The Runaways que conta a história de uma banda de rock formada por cinco mulheres que surgiu na Califórnia no final dos anos 70. 

Kristen como Joan Jett
Dakota como Cherie Currie
Apesar de trazer Kristen Stewart e Dakota Fanning em atuações interessantes, não posso afirmar que este seja um primor cinematográfico.
Afinal, as produções hollywoodianas são quase sempre previsíveis e feitas para vender. Mas o filme até que diverte: a Kristen está identica à guitarrista Joan Jett e Dakota Fenning interpretando a vocal Cherie Currie está arrasando, (como sempre). As cenas entre as duas oscila deliciosamente entre amor e ódio, envoltas em bastante erotismo com uma pegada rock. 

Sim, elas se pegam no filme :O
Mas, se o filme tem UM mérito verdadeiro, eu diria que foi o de apresentar para a geração mais nova uma banda de rock composta por mulheres que fizeram sucesso de verdade, com uma música de qualidade e sem precisar posar de boas-moças. Tudo bem que rolou um marketing pesado e a época era favorável, mas enfim, não é todo dia que isso acontece.


Ainda que atualmente estejamos vivendo uma época mais plural, onde temos desde Taylor Swift pagando de virgenzinha até Miley Cirus pirando o cabeçote, ainda faltam exemplos na mídia de mulheres que consigam formar a tríplice sucesso-diferencial-talento. É mais normal encontrar artistas que tem sucesso e diferencial, mas nenhum talento ou que tem talento e diferencial, mas não fazem nenhum sucesso.

E com sucesso eu quero dizer atingir o maior número de pessoas possíveis. Porque, boa ou má, a alta exposição de qualquer coisa gera influência e mexe com a cabeça das pessoas. E eu acho que seria bom para as meninas perceberem que podem se inserir no meio rock n'roll. E ainda que tenhamos várias mulheres produzindo boa música em todos os estilos musicais, a questão é que elas nunca atingem grande notoriedade (pelo menos não na medida do seu talento). Principalmente no rock, nunca foi concedido a elas tanto espaço e visibilidade quanto é concedido aos homens. E é fácil perceber isso, fazendo um teste simples:

Pense em 5 bandas de rock. E responda:
1) Quantas delas tem pelo menos uma integrante mulher?
2) Quantas delas tem todas as integrantes mulheres?

Se você respondeu "uma" ou "duas", eu estarei surpresa. Se é tão normal, pensar em uma banda de rock composta somente por homens, porque é tão estranho pensar no equivalente feminino? Uma banda só de mulheres parece uma excentricidade. Pois não deveria ser. Qualquer ser humano com talento deveria ter seu espaço ao Sol, independente do gênero.


Então beleza, voltando ao The Runaways, posso dizer que valeu a pena assistir o filme. Principalmente por ter tomado conhecimento da banda. Então baixe o filme, assista e tire suas próprias conclusões. Com certeza você vai voltar aqui para baixar os álbuns também (basta clicar nas imagens para ser direcionado ao 4shared). O link do filme segue na imagem abaixo.                                                                                                                                  
And
Álbum 1
 Live in Japan
Álbum 2
 Queens of Noise
Álbum 3
Álbum 4

Link do filme em Torrent



quinta-feira, 14 de novembro de 2013

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Imortalidade - Charles Bukowski



Essa primorosa citação está na pág 127 do livro Pedaços de um caderno manchado de vinho, do autor Charles Bukowski. Editora: L&PM Pocket

domingo, 10 de novembro de 2013

La rabia en español - Ariana Mendonça






Por las calles y passeos
Pelean peatones y coches
Sea con derechos o deseos
de ocupar espacio en doble

A veces me siento como una campesina

Mirando admirada por la ventana
un pueblo ciego, pero que camina
con tanta prisa y sin ninguna gana

En esta lucha del tráfico

no sé quien es más burro
La rueda que lleva progreso
o el chico que consome sus muslos

¡Dale camiñar! ¡Dale la rabia!

Tanta prisa, ¿Y el pensar donde queda?
Yo creía que mi esperanza era sabia 
                                 Pero terminó bajo a las ruedas


10/11/2013, por Ariana

sábado, 9 de novembro de 2013

Garbage - Only happy when it rains - porque reclamar também é catarse!



Tá certo que (quase) ninguém curte estar na deprê, aquela vibe super ruim e negra que se abate sobre todo e qualquer ser humano em alguns momentos da vida. Ninguém gosta de sofrer desmesuradamente, nem  de chorar, se descabelar e de celebrar a dor. Mas quem disse que não dá para sentir prazer na tristeza? 

Eu por exemplo, acho que existe uma baita felicidade em dizer que o trabalho é uma droga, que o time de futebol está jogando mal pra cacete, que o professor é um babaca que te reprovou e que está doendo muito o pé na bunda que se levou do grande amor. Logo, me senti representada ao ouvir essa música invocada e prá-lá de gostosa, chamada "Only happy when it rains" da banda Garbage. Fazendo uma interpretação para o meu lado, acho que ela se refere aos pessimistas de plantão (eu já tenho a carteirinha do clube!) - aquelas pessoas que adoram reclamar de tudo, sofrer por antecipação e achar um lado ruim em coisas que não tem.

Só tenho a dizer uma coisa em nossa defesa: Não dá para evitar! Já está nos nossos genes. Quando meu dou conta, lá estou eu reclamando de algo. O lado bom, é que sempre encontro pelo meu caminho pessoas que são do tipo alto-astral e que acabam equilibrando a minha balança. E consequentemente, faço o mesmo por elas, já que (parafraseando o Frejat) "Rir de tudo é desespero". E dessa maneira, a gente segue, tentando não ser uma pessoa nem positiva, nem negativa, que é pra ver se atrai boas energias,
mesmo elas não gostando da gente, né? :)

Afinal, reclamar também é catarse! Então toca Garbage:





I'm only happy when it rains
Eu só fico feliz quando chove
I'm only happy when it's complicated
Eu só fico feliz quando é complicado
And though I know you can't appreciate it
E embora eu saiba que você não consegue apreciar isso

I'm only happy when it rains
Eu só fico feliz quando chove

You know I love it when the news is bad

Você sabe que eu adoro quando as notícias são ruins
Why it feels so good to feel so sad

Porque é tão bom se sentir tão mal
I'm only happy when it rains

Eu só fico feliz quando chove

Pour your misery down, pour your misery down on me

Derrame sua tristeza em mim, derrame sua tristeza em mim, 
Pour your misery down, pour your misery down on me
Derrame sua tristeza em mim, derrame sua tristeza em mim,
I'm only happy when it rains
Eu só fico feliz quando chove
I feel good when things are going wrong
Eu me sinto bem quando as coisas estão dando errado

I only listen to the sad, sad songs
Eu só ouço as tristes, as músicas tristes

I'm only happy when it rains
Eu só fico feliz quando chove





I only smile in the dark
Eu só sorrio no escuro
My only comfort is the night gone black
Meu único conforto é a noite escurecendo
I didn't accidentally tell you that
Eu acidentalmente não te contei isso
I'm only happy when it rains
Eu só fico feliz quando chove

You'll get the message by the time I'm through
Você vai entender o recado quando eu terminar
When I complain about me and you
Quando eu reclamo de mim e você
I'm only happy when it rains
Eu só fico feliz quando chove

Pour your misery down (Pour your misery down)

Derrame sua tristeza (derrame sua tristeza)
Pour your misery down on me (Pour your misery down)

Derrame sua tristeza (derrame sua tristeza)
Pour your misery down (Pour your misery down)

Derrame sua tristeza (derrame sua tristeza)
Pour your misery down on me (Pour your misery down)

Derrame sua tristeza (derrame sua tristeza)
Pour your misery down (Pour your misery down)

Derrame sua tristeza (derrame sua tristeza)
Pour your misery down on me (Pour your misery down)

Derrame sua tristeza (derrame sua tristeza)
Pour your misery down
Derrame sua tristeza

You can keep me company

Você pode me fazer companhia
As long as you don't care

Desde que você não ligue

I'm only happy when it rains

Eu só fico feliz quando chove
You wanna hear about my new obsession?

Você quer ouvir sobre a minha mais nova obsessão?
I'm riding high upon a deep depression

Eu estou curtindo uma depressão profunda
I'm only happy when it rains (Pour some misery down on me)

Derrame sua tristeza (derrame sua tristeza)

I'm only happy when it rains (Pour some misery down on me)

Derrame sua tristeza (derrame sua tristeza)
I'm only happy when it rains (Pour some misery down on me)

Derrame sua tristeza (derrame sua tristeza)
I'm only happy when it rains (Pour some misery down on me)

Derrame sua tristeza (derrame sua tristeza)
I'm only happy when it rains (Pour some misery down on me)




quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Ángela Vallvey


Nenhum deles era feliz. Demasiada solidão - ou frustração, ou informação, ou ressentimento, ou repressões ou medo - todos os tinham em graus distintos, paralisados e confusos ante a estranha intensidade que supõe
viver, a trágica imprecisão de um fato tão sensível e também tão extraordinário.

terça-feira, 29 de outubro de 2013

A mãe da mãe da sua mãe e suas filhas – Maria José Silveira

    Eu me atraso. Nos últimos dias ando sempre atrasada, correndo pelas ruas do Rio, tão rápido que é de botar inveja em atleta. Naquele dia não era diferente até que, em frente à estação da Carioca esse livro me golpeou bem nos olhos. Parei de chofre (mesmo sabendo que não podia) admirei a capa, li seu verso, acendi um sorriso, abri, folheei, li a primeira página e senti: que ele era meu. Já fazia parte de mim. Retirei uma simplória nota da carteira e o levei comigo, para me acompanhar no metrô. Que vida bonita essa, que ainda é capaz de nos trazer alegrias imprevisíveis e felicidade quase gratuita. Em pensar que levou apenas cinco minutos para atingir essa sensação, que perduraria enquanto esse lindo livro estivesse apoiado no meu colo, até o virar da última página. 

A beleza do livro A mãe da mãe da sua mãe e suas filhas consiste em reescrever uma espécie de genealogia brasileira - a partir da história de mulheres que habitaram terras tupiniquins desde os primórdios até os dias atuais – fazendo um retrato das mesclas raciais, dos hábitos, costumes, das dificuldades e das riquezas que foram lentamente compondo o que viria a se tornar o povo brasileiro. Tendo mulheres como fio condutor. Não são poucos os livros sobre História do Brasil, mas raros são aqueles que utilizam o ponto de vista feminino para contar o passado. A maioria emprega um olhar masculino - construindo uma visão unilateral - apagando assim, um pedaço dos nossos hábitos, tradições e memória – como se fosse possível um país se reproduzir e desenvolver sendo habitado apenas por homens. 

Maria José Silveira - autora
Que não a minha surpresa e deleite ao deparar com uma narrativa que inclui a mulher como ser ativo e construtor do passado histórico que é meu e seu. Enfim, de todos nós brasileiros, que somos (perdoem o trocadilho) todos filhos-das-mães. Obviamente, que a história é ficcional - não estamos falando de nenhum livro didático de história aqui. O que, de nenhuma maneira o desqualifica, muito pelo contrário. Se nas escolas a história fosse ensinada utilizando um viés lúdico, acredito que nossa identificação seria maior, e consequentemente a assimilação do conteúdo seria melhor. A contextualização no aprendizado da história é importantíssimo, porque  é necessário entender que o 'hoje' é uma continuação do 'ontem'. A história sempre se repete, reinventa e modifica e por isso é ela quem melhor pode nos ajudar a entender o presente.



Tal qual me vês,
há séculos em mim:
números, nomes, o lugar dos mundos
e o poder do sem fim.
Cecília Meireles, "Trânsito"


Às vezes é fácil esquecer que descendemos de uma mistura de índio, com português, holandês, espanhol, italiano, sueco, francês, africano etc. e tal. Quantas linhagens se cruzaram e separaram ao longo do tempo! Podemos ter antepassados comuns com pessoas com quem cruzamos nas ruas, no trabalho, no ônibus, na boate, na faculdade... E essa descendência só foi possível, porque existiram mulheres capazes de se embrenhar no mato, desbravar sertões, plantar, colher, criar gado, extrair ouro, vivendo em condições tão difíceis e árduas quanto a dos homens. Mulheres que foram capazes de se entregar ao amor. Mas que também foram escravizadas, exploradas, estupradas, assassinadas, e que ainda assim foram capazes de gestar, parir e cuidar de seus numerosos filhos. Esse é o banho de realidade que levamos com o livro de Maria Silveira. 


 Mas engana-se quem pensa que o livro trata sobre a maternidade como fim. Poderíamos entendê-la nessa obra como o meio, um pano de fundo, um fio sobre o qual a autora foi trançando a história das famílias brasileiras através dos tempos: desde a primeira indiazinha Inaiá em 1500 até a moderna Maria Flor no ano 2000. É possível acompanhar Tebereté que engordou o holandês (pai da sua filha) só para servir de refeição ao seu ímpeto caníbal, ou Filipa que foi escrava numa fazenda de cana e foi brutalmente assassinada, também Ana de Pádua menina interesseira mais inocente morreu sem nunca conquistar seu sonho, a namoradeira Açucena Brasília que se tornou patrimônio da vila onde morou e ainda Jacira Antônia mulher forte e decidida que criou gado no Centro-Oeste e manteve a riqueza e equilíbrio da família após a morte precoce do esposo. Assim como fala a própria autora nas primeiras linha do livro: 



             Se é assim, que vocês querem, vamos contar a  história das mulheres da família.
             Mas vamos contar com calma. 
             O assunto é delicado, a família é complicada, e nem tudo foi beleza nesta história. Houve,                  claro, felicidades e amores, muitas lutas e conquistas, grandes realizações - afinal, elas                         ajudaram a construir quase do nada este país. Mas houve também loucas, assassinas, muitas         desgraças e tristezas. Grandes dores. Muitas mesmo.

Com uma narrativa leve, bem humorada e cativante, Maria Silveira vai mesclando imaginação com dados históricos o que faz do livro nem um tratado histórico nem uma literatura completamente ficcional, mas uma mistura dos dois. Mais brasileiro impossível.

A fotografa Civone Medeiros retratou a força da mulher sertaneja. 

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Tentativa

Eu tentei no passado
Eu tentei ontem
Eu tentei obstinada e cegamente
Hoje não tento mais
Daqui para frente desisto
O que eu ganho desistindo?
Basicamente nada.
Que não o direito de dizer "não!" a maquinaria da vida.

O direito de parar o meu tempo
O direito de me calar.
O direito de ser surda.
O direito à preguiça.
O direito ao meu próprio corpo.

A liberdade em mim.

E essa é basicamente a única coisa,
que me interessa.

segunda-feira, 1 de julho de 2013

O lexical-poder de persuasão



"O orifício anular corrugado localizado na parte inferior lombar da região glútea de um individuo em alto grau etílico, deixa de estar em consonância com os ditames referentes aos inalienáveis direitos individuais de propriedade."

Obviamente que eu discordo do ditado: "c* de bêbado não tem dono", afinal jamais se deve abusar física ou verbalmente de outro individuo, especialmente aqueles em  situação de vulnerabilidade. Brincadeiras (sem-graça) à parte, suscitei esse cartaz, para ilustrar como pode ser forte o poder de reforço/convencimento do léxico de nossa querida língua. A utilização de uma linguagem extremamente formal, pode muitas vezes mascarar a verdadeira natureza do discurso, promovendo um processo de "embelezamento" e seriedade - que nem sempre existe. Na fala coloquial é o que poderíamos chamar de "falar bonito", "floreio" ou "enchimento de linguiça". Essa técnica costuma ser muito utilizada pelos políticos em suas campanhas, se aproveitando da escassa educação do povo ou da simples falta de familiaridade que temos com esse tipo de linguagem. Dessa forma, eles enchem com beleza lexical um discurso vazio de ideologias - ludibriando seus eleitores em época de eleição.


O léxico pode ser compreendido como o acervo de palavras de uma determinada língua e o  vocabulário como a seleção e emprego pessoal que se faz desse léxico. Os usuários da língua tem a sua disposição, portanto um conjunto de palavras para efetivar o processo comunicativo. E pode-se dizer que quanto maior é o seu vocabulário, maior será a sua desenvoltura lexical e consequentemente a sua capacidade de expressão - e porque não de persuasão?


Não quero dizer com isso que é errado ou desonesto utilizar um bom português. A nossa língua é de uma riqueza e beleza imensas, que devem ser aproveitadas. O português formal deve ser bem ensinado e aprendido nas escolas e ainda que não o utilizemos no dia-a-dia - isso não retira a sua importância. O que intentei demonstrar com esse texto, é que nem sempre a linguagem formal é honesta, e nem sempre quem fala "bonito" é por isso mais inteligente ou mais capaz. Já vi transbordar sabedoria de bocas que mal saberiam soletrar uma palavra ou compor um texto conciso. E mais tristemente, já vi brotar muita falácia, hipocrisia e preconceito, de mentes mestradas, doutoradas e pós-doutoradas.


Isso existe porque existe a linguagem e educação formais, que são fundamentadas em regras e preceitos para seu correto aproveitamento. Mas existe também a linguagem coloquial e educação informal. Essas duas últimas, dificilmente podem ser ensinadas na escola, seu aprendizado é diário, cotidiano, e suas lições acabam sendo tão ou mais valiosas que as da primeira. Pois, ao contrário, a sua evolução não depende de recursos monetários, mas apenas de interesse, observação e vontade de aprender.


Portanto, lembrem-se bem: nem sempre aquele que se expressa melhor, se expressa com mais verdade. E se vocês virem alguém tentando lhes convencer ou vender algo utilizando uma linguagem rebuscada, desconfiem, estejam conscientes do lexical-poder de persuasão! 

Carlos Drummond de Andrade


domingo, 16 de junho de 2013

[DOCUMENTÁRIO] - Clitóris, prazer proibido

Não é um pouco surpreendente que até hoje não tenha sido dada a devida atenção ao clitóris? Ainda que ele seja o único órgão dos seres humanos que tem como destinação exclusiva servir ao prazer das mulheres? "Enquanto ao pênis, com seu papel de servir a dois senhores como canal condutor de urina e de sêmen, falta o refinamento da especialização." ¹ possuindo apenas 4 mil terminações nervosas, enquanto o clitóris possui o dobro disso?

E ainda tem homem que desconhece esse tesouro feminino! Só tenho a dizer aos que desconhecem onde fica e como funciona o clitóris, que descubram. E que façam suas mulheres muito mais felizes e realizadas, o que por consequência também fará com que eles tenham um retorno melhor na sua relação sexual. Afinal, nada como dar e receber prazer de quem se gosta. 

Então, como ajuda aos homens e como esclarecimento as mulheres, segue esse vídeo que é super interessante e esclarecedor.


                                                Vídeo no mínimo educativo e libertador.


¹ SILVEIRA, M. J - A mãe da mãe da sua mãe e suas filhas. Ed. Globo. pg. 357 

quinta-feira, 30 de maio de 2013

A Mulher do Jornal

Porque MULHER é um tópico ou caderno a parte nos jornais, como se as mulheres fossem incapazes de ler um jornal inteiro? E porque os temas desses cadernos são sempre: dieta, beleza, maquiagem, horóscopo, moda e sexo? Parece que ainda estamos nos anos 1950! Talvez ainda precisemos da Simone de Beauvoir reforçando que a mulher não é só casa e bebês no seu “O Segundo Sexo”. 

E as pessoas diriam: “Mas qual o problema de um caderno especial para as mulheres? Isso não demonstra o quão elas são importantes?” E eu digo NÃO! Por uma razão muito simples: porque não existe um caderno equivalente escrito HOMEM. Percebe-se que não existe um tratamento igualitário, apenas uma dupla moral. Para os homens existe o caderno de Esportes, existe o caderno de Automóveis. Ou seja, é como se os assuntos que interessam aos homens fossem sérios o suficiente para serem tratados em cadernos à parte com matérias inteiras e completas. Enquanto o dito caderno da mulher é um miscelânea condensada do que supostamente "deve interessar a mulher”, uma coluna à esquerda com o resumo das novelas, um artigo explicando como disciplinar os filhos à direita, o cantinho do horóscopo e uma página inteira com as tendências de moda, tudo permeado com propagandas mostrando fotos de lindas mulheres vendendo bolsas, sapatos, roupas e maquiagem. Porque a única coisa que pode interessar de verdade as mulheres é ficar linda e comprar (de preferência utilizando o cartão de crédito do marido) não é mesmo, publicitários? 
                        
Isso tudo me tira do sério! Porque ao menos não tem um artigo falando sobre Economia ou a situação climática nesses cadernos? Porque a mensagem subliminar nos diz:” Esse é o mundo dos homens, mulheres não precisam saber disso porque elas são bobas e frágeis e não farão nada de útil com essa informação!”





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